“Vejo esses movimentos como Maios de 68 pós-modernos: emoção coletiva, que provoca o contágio e se alastra de forma incontrolável.”
Michel Maffesoli, para O Globo.

  1. O Tribalismo na História

Vemos na sociedade emergir formas de se relacionar aparentemente novas. Para compreendê-las, é necessário discorrer acerca de sua forma primitiva: o sistema de clãs e tribos.

A estrutura básica de agrupamento social primitiva foi o clã.[1] A humanidade dividia-se em tais grupos por laços de parentesco, com interesses econômicos e espirituais. A expansão do regime clânico se deu a partir do Período Mesolítico, com a união de diferentes clãs endógamos, sustentados pelo matriarcado, formando assim o complexo tribal.

No Tribalismo a unificação dos clãs se dá pela submissão de todos os membros da tribo a um símbolo. A este se identificam os clãs, entregando sua individualidade para assumir a consciência coletiva, que se manifestou, e retornará nos nossos tempos como uma identidade comum dentro do grupo. Nos clãs, a primeira forma de símbolo nasce com o Totemismo, em gênese comum ao Tribalismo, um casual ao outro.

A tribo é um escalão da sociedade primitiva e possui território, língua e culto próprios. Os chefes dos clãs e os chefes militares compunham o conselho tribal, agindo sempre por unanimidade nas decisões; a organização tribal é democrática para todos: deveres e direitos não são distintos. A pertença se dá pela submissão ao Símbolo da tribo, imediatamente, e pela participação nas atividades comuns. A recusa do tomar parte nas atividades gera um desprezo que culmina na exclusão. A divisão do trabalho já era definida pelo sexo e idade[2].

A dissolução do Tribalismo primitivo ocorreu principalmente pelo desenvolvimento da produção, a partir do Neolítico Inferior, sendo substituído pelo sistema de classes e a primeira formação de Estado.

Todos os valores desta sociedade primitiva permaneceram na consciência coletiva durante as longas eras da humanidade. O “estar junto”, “sentir com”, e toda a dinâmica afetual da tribo serviu de base para as formas de agrupamento social e as relações sociais de toda história.

O apogeu da Modernidade se consolidou na sociedade institucionalizada, engessada. As relações sociais tornaram-se frias e distantes, na tentativa de sobressaltar a individualidade e o culto do eu. As grandes sociedades modernas pautaram-se na racionalização de tudo o que concerne à vida humana: religiosidade, relações, liberdade… “Insistiram tanto na desumanização, no desencantamento do mundo moderno, na solidão que este engendra, que não conseguem mais ver as redes de solidariedade que nele se constituem.”.[3]

Com o advento da Pós-Modernidade as estruturas tradicionais da sociedade mostraram-se nitidamente ineficazes. Não garantiam ao homem sua realização enquanto ser. Neste panorama social nasce uma recuperação dos valores primitivos.

Como primeira forma de grupo em contracultura surge o movimento Hippie em 1960, contrapondo-se aos organismos e instituições vigentes, disposto a quebrar tabus, e rompendo com o individualismo, numa comunidade de afeto.

O famoso “Peace and Love!”, máxima aderida pelo movimento, é verdadeiramente a sua característica fundamental. “Paz”, em um tempo de respiro do pós-guerra, passa de utopia a objeto de conquista, e “amor”, concentrando no termo todo hedonismo moderno, tornam-se modvs vivendi. No movimento Hippie encontramos as raízes ideológicas das Tribos Urbanas, o prazer, o estético e a contracultura, pontos básicos para identificar o agrupamento neotribal.

Para os Hippies a vida é um grande momento a ser aproveitado na ausência do poder. Todas as instituições, as instituições tradicionais e os sistemas da sociedade, como a Igreja, o próprio Estado, o capitalismo, compõem junto uma única “Instituição” detentora do Poder.

Na gênese do movimento Hippie encontramos escritores e artistas que assumiram para si um modo de vida alternativo, conhecidos como Geração Beat. Assim, na formação do Tribalismo contemporâneo percebemos a influência intelectual, ou seja, a base ideológica que assume para si a revolução dos valores da época.

O termo “hippie”, utilizado pela primeira vez por Michael Smith em setembro de 1965, para um jornal de São Francisco, CA, tornou-se popular então para designar pessoas que optavam pela vida em comum, apreço pela natureza, defesa da liberdade sexual, com visão socialista-libertária.

 


[1] Cf. V. DIAKOV, A sociedade primitiva, p. 32.

[2] Cf. DIVALTE G. Figueira, História, p. 10.

[3] Michell MAFFESOLI, O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa, p. 101.

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